“Eu queria, mas não conseguia...": Aspectos relacionados à mudança do comportamento de fumar em participantes de grupos de tabagismo
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Resumo
O tabagismo, antes visto como comportamento elegante e charmoso, foi reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como dependência química no ano de 1997, e como um dos principais agentes de morte e adoecimento passível de ser evitado. A OMS estima que um terço da população mundial adulta, totalizando um bilhão e duzentos milhões de pessoas, seja fumante e, embora cerca de 80% delas manifestem a intenção de parar de fumar, menos de 3% conseguem mudar esse comportamento, sem ajuda formal, a cada ano. No Brasil, desde 1989, o Programa Nacional de Controle do Tabagismo tem
capacitado profissionais da saúde para utilizar as abordagens mínima (individual) e intensiva (grupal) junto ao fumante em unidades do Sistema Único de Saúde, tendo por aportes teóricos a abordagem cognitivo-comportamental e o Modelo Transteórico da Mudança de Comportamento. A presente pesquisa foi desenvolvida em quatro unidades públicas de saúde do Distrito Federal e buscou identificar características da conduta tabagista e investigar fatores que pudessem se relacionar à mudança do comportamento de fumar em pessoas que participaram dos grupos. Trata-se de um estudo descritivo com
delineamento transversal, retrospectivo e complementarmente documental, que se caracterizou pelo uso de técnicas quantitativas e qualitativas de coleta e análise dos dados. A amostra de conveniência foi composta de 22 homens e 41 mulheres, com idades entre 30 e 73 anos (M=49,63; DP=10,24), egressos dos grupos há no mínimo seis e no máximo
doze meses. A coleta de dados valeu-se dos instrumentos: roteiro de entrevista semiestruturado; Inventário Beck de Ansiedade; Inventário Beck de Depressão; URICA-24 para Tabaco, escala que avalia a prontidão para mudança por meio de estágios motivacionais; Ficha Clínica do Ambulatório de Tabagismo e Questionário de Dependência Nicotínica de
Fargerström. Foram utilizadas técnicas estatísticas para o tratamento dos dados quantitativos e análise de conteúdo categorial para os relatos obtidos nas entrevistas. Os resultados indicaram que 64% da amostra apresentaram níveis elevado ou muito elevado de dependência à nicotina ao início do tratamento. À época da coleta de dados, 36 pessoas
não estavam fumando (57,1%) e 27 tinham voltado a fumar (42,9%). A categoria influência de pares/colegas foi o principal motivo relatado para o início do tabagismo; para a decisão de mudar o comportamento de fumar foram referidas questões relacionadas à própria saúde. Os aspectos que mais freqüentemente levaram à recaída foram os problemas em família ou no trabalho, segundo relatos dos participantes. Quanto ao enfrentamento da fissura, houve um predomínio do uso de estratégias comportamentais em detrimento de estratégias cognitivas. Foram identificadas dificuldades de ordem semântica em relação à
URICA-24, o que prejudicou a conclusão sobre os seus resultados. Os escores de ansiedade e depressão apontaram predomínio de níveis mínimo e leve, e essas variáveis apresentaram correlação positiva e moderada (r=0.41; p<0,001). A família foi mencionada como a principal fonte de suporte social, seguida do grupo de tratamento. A condição em que os participantes se encontravam à época da coleta de dados, fumando ou não fumando, não se diferenciou significativamente segundo o gênero, faixa etária, escolaridade, renda familiar ou situação conjugal, nem quanto às demais variáveis analisadas. Ansiedade, depressão (p=0,078 para ambas) e tempo de uso do tabaco na vida (p=0,095) foram as variáveis que mais se aproximaram da significância estatística, atingindo valores limítrofes. Como uma das implicações práticas do estudo, foi sugerida o envolvimento da família do fumante na dinâmica do atendimento intensivo. Espera-se, enfim, que os resultados contribuam com as políticas públicas de saúde no controle do tabagismo.
Descrição
Curso: Pós-graduação stricto sensu em Processos de Desenvolvimento Humano e Saúde
Instituição: Universidade de Brasília
Palavras-chave
Comportamento, Dependência, Mudança
